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Terça-feira, 27 de Abril de 2004
Festa

lagrim.jpg


Naquela noite vesti-me para a festa. Coloquei o meu vestido longo, negro, que tu adoravas, o anel que me ofereceste, o perfume que te inebriava.
Era a forma de te sentir mais perto e não a mais de 100 km de distância, por terras do Sul.
Saí de casa contigo no meu pensamento e com a dor no peito, de quem sentia a aproximação de um fim.
A noite estava fria, como se esperava de uma noite de Dezembro e aconcheguei o casaco no pescoço, imaginando que seria o teu abraço. Entrei no carro, esfregando as mãos do frio e liguei o aquecimento. Seguia pela estrada que me levava ao hotel no meio da serra, à festa que me aguardava. As ruas estavam enfeitadas para receber o Natal e algumas pessoas apressadas seguiam em direcção às suas casas, na ânsia do calor do lar.
Entrei nos jardins do hotel, estacionei o carro e entrei na recepção. Rapidamente me indicaram a sala onde se encontrava o grupo de amigos em amena cavaqueira. Juntei-me a eles mas o meu coração sentia um aperto e pensei em ti, se estarias bem. Pensei em ligar-te mas tive receio do que a tua voz me dissesse.
Peguei num copo, dei mais uma volta pela sala, conversei um pouco, dei alguns sorrisos, ouvi umas piadas. Mas, o meu pensamento estava em ti e no teu tom de voz na última vez que conversámos.
E enquanto eu me sentia indecisa e tocava na mala, com vontade de pegar no telemóvel e ligar-te, eis que ele toca.
Eras tu! Não cabia em mim de contente, sem saber que esse telefonema seria o princípio do fim.
Notei na tua voz a frieza da noite de Inverno, nas tuas palavras o gelo que me entrava a pouco e pouco nos ossos. O meu encantamento foi caíndo, dando lugar à tristeza. Um tempo, pediste-me tu... Apenas um tempo! Deverias conhecer-me melhor e saber que não te daria um tempo. Que esse tempo que necessitavas, seria o fim. Para mim, não haveria retorno.
Desliguei o telemóvel e a minha vontade foi fugir dali, sossegar no meu canto, chorar as minhas mágoas, lamber as feridas.
Não podia... Pessoas que não imaginavam o que se passava, esperavam-me lá dentro... Lá, onde a festa se desenrolava. Lá, onde os risos e conversas se sobrepunham a qualquer desespero.
E eu alisei o meu vestido, ergui o rosto que se mantinha sem lágrimas, nem sei bem como, coloquei o meu melhor sorriso e, como se acabasse de vencer uma batalha, entrei esbanjando alegria, escondendo a minha derrota.
Uma alegria falsa, um disfarce tal como o de um palhaço.
Da minha boca saíam palavras de agrado, de riso, de brincadeira. No meu peito o coração gemia.
No meu rosto, os sorrisos sucediam-se. Nos meus olhos, as lágrimas esforçavam-se por não cair.
E assim terminei aquela noite de festa.
Uma festa feita de risos e lágrimas não derramadas.

publicado por Anjo do Sol às 22:38
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20 comentários:
De Anónimo a 28 de Abril de 2004 às 14:35
---->LetrasAoAcaso----> Por vezes, há segundas oportunidades para o amor, apenas não há para as pessoas. O nosso problema está em saber diferenciar, e nem sempre se consegue. BeijoAnjo do Sol
(http://mywords.blogs.sapo.pt)
(mailto:anjodosol@sapo.pt)
De Anónimo a 28 de Abril de 2004 às 14:28
----> Xanu / patinhas ----> Eu também não acredito em dar um tempo, em segundas oportunidades. Por isso, foi o fim. Mas, continuarei a contar a partir da Festa. Não há muito mais. Mas, outro dia colocarei. BjitosAnjo do Sol
(http://mywords.blogs.sapo.pt)
(mailto:anjodosol@sapo.pt)
De Anónimo a 28 de Abril de 2004 às 14:27
---->Dora / sybilla ----> Sim, muitos sorrisos fingidores, muitas lágrimas guardadas, muita tristeza escondida, mas uma aparência incólume. :) BjinhosAnjo do Sol
(http://mywords.blogs.sapo.pt)
(mailto:anjodosol@sapo.pt)
De Anónimo a 28 de Abril de 2004 às 14:24
---->Sâmila----> Sim, Sâmila, foi real. Muito real mesmo. Foi o fim de uma relação. Lamento que te tenha feito chorar. BjinhoAnjo do Sol
(http://mywords.blogs.sapo.pt)
(mailto:aaa@sapo.pt)
De Anónimo a 28 de Abril de 2004 às 13:42
dar tempos... não sei se vou nessa, pois acho que se algo acontecesse nos entretantos, mesmo em epoca de "tempo" para mim era o fim, por isso não vou muito com a teoria de dar um tempo. Temos é que sentar á mesa conversar e resolver os nossos problemas e as nossa divergencias, depois, disso ou fica tudo +- bem, ou vai cada um para seu lado, isto sou eu a pensarpatinhas
(http://aliberdadedeescrita.blogs.sapo.pt/)
(mailto:prcpf@latinmail.com)
De Anónimo a 28 de Abril de 2004 às 10:24
De uma tristeza linda. Bjo amiguinha.sibylla
(http://copulavocabular.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sibylla@sapo.pt)
De Anónimo a 28 de Abril de 2004 às 10:24
Em época de introspecção, este texto cabe-me que nem luva.

Baralhado, aturdido, com a sensação que no amor não há duas oportunidades.

Belo texto. Obviamente mtº pessoal. Dói, eu sei.

Beijinhos.LetrasAoAcaso
(http://LetrasAoacaso.weblog.com.pt)
(mailto:manintherisingsun@hotmail.com)
De Anónimo a 28 de Abril de 2004 às 02:28
Não acredito em dar um tempo...nem em segundas oportunidades. BjXanu
(http://www.lugarencantado.blogs.sapo.pt)
(mailto:aldina@pthosting.com)
De Anónimo a 27 de Abril de 2004 às 23:59
Quanta dor nesses sorrisos fingidores...Muito bonito, o teu texto.Dora
(http://levementerotico.blogs.sapo.pt/)
(mailto:ledamadrugada@yahoo.com)
De Anónimo a 27 de Abril de 2004 às 23:40
Oi, li o texto achei muito triste, e como estou brigada com o meu amor, danei a chorar, isso é real? Ou apenas um conto?

Beijos
SâmilaSâmila
(http://www.quaseumanjo.blogger.com.br)
(mailto:samila1@uol.com.br)

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